Um lenço

verde-abacate

Ela bem resultaria uma heroína, em lenda.
Embora dos belos vestidos gostasse, de renda,

longe estava de viver entre palácios, ser nobre.

Vaidosa ela nem era. Outra classe. Bem pobre.

Orgulhosa era talvez quando mais jovem. Defenda.

Mas então o seu destino é quão propício? Descobre.

(Não). Não é hora para canto. A confirmação da doença parecia, a princípio, ser apenas mais um informe de diagnóstico, não aquela última notícia fatal, irreversível. Talvez porque acreditasse numa solução, uma cura qualquer, talvez para receber os devidos cuidados, ausentes quase sempre em situações outras, recebeu com certa naturalidade o resultado pelo médico: era mesmo maligno. Os sinais foram muitos (ninguém viu?).

Ela não soube toda a verdade (não!), e apenas se limitou a acreditar ou entrou no jogo. Era um momento novo de viver. Haveria talvez algum tipo de acordo com a nova situação, algum desejo inconsciente de passar por aquilo para ser mais acolhida, mais cuidada? Haveria no imaginário contrato da travessia da vida uma cláusula da estética da dor, com sua potência purgante, catártica, como na estranha beleza que costumamos apreciar ao assistir a uma cena trágica? Há mesmo uma sensação de gozo diante do palco quando assistimos à encenação da dor humana? Ela voltou para casa pensativa, não com esses pensamentos sob a forma de pergunta, as indagações eram outras, mas a difícil novidade ainda tinha ares de inesperado. Era, portanto, algo que, em aparência, se aceita. Ou porque acreditava no desfecho feliz, ou porque não separava a realidade da ficção e aquela notícia lhe parecia um rascunho de uma bela obra do destino, ou porque, sempre forte e lutadora, apoucou a força dos fados. Voltou para casa assim, assim mesmo, pensativa. Fossem quais fossem as ideias em sua cabeça, dava quase para vê-las.

 

Hora é de recuar, aceita outra opção!

Tenda pro não, que pode não falhar!

Outro jogo joga, aceita outro dado,

mas um não marcado, mulher, prorroga!

As sessões de quimioterapia são também partes do ato. São como as dores intermediárias das personagens da tragédia. Das primeiras, ela retornava segura, com uma vivacidade quase nunca vista na sua idade. Com os primeiros sinais de queda capilar, resolveu tosquiar seus próprios cabelos, que já tinham uma cor meio acinzentada, com a mistura do preto com o branco. Foi ao banheiro, abriu uma gaveta e dela retirou uma tesoura. Com as pontas dos dedos separava montes de cabelos e os cortava. Olhava a cena como quem se veste para ir ao palco pela primeira vez, sem ainda conhecer direito a nova personagem, como quem ajeita a maquiagem antes da entrada triunfante no ato trágico.

Agora precisava de lenços. Não, não queria perucas, embora fosse a sua chance de ter os cabelos encaracolados que sempre desejou. Lenços, lenços sim. Haveria de ter lenços de todas as cores para cobrir-lhe a cabeça. Ela sempre gostou de lenços, desde a época em que tinha uma barraca de roupas na feira e os pendurava nas quinas esperando uma ou outra freguesa atraída pela boniteza das cores e das estampas. Na cidade grande não havia feiras, ou pelo menos ela nunca as tinha visto. Mas haveria muitas lojas com lenços de todos os tipos.

Ela pediu ao seu filho do meio (um eu que hesita em narrar) que a levasse a uma loja de lenços. Ali se estabeleceu sua grande ligação com ele. No fundo, ele compreendia a mãe. Ele entendia agora a sua fixação pelos lenços. E foram juntos à loja. E permaneceram juntos até o fim (ou o sim, do beijo final, gélido). Naquele dia, ela levou cinco lenços. E haveria dia para pedir mais um de uma ou outra cor para combinar com alguma roupa que desejava usar nas saídas de tratamento.

 

Sim, ela gosta de fitas, de arremates, bordados.

Mas não vê se avizinhar a sentença dos fados?

Um dia, ele foi surpreendido com um pedido especial, naqueles momentos em que ela já pouco falava, sempre em dormência, em quase ausência: “Eu gostaria muito de um lenço de cor verde-abacate”. Ele tentava entender o pedido, ou porque era realmente estranho ou porque a voz era já trêmula, confusa, morfinosa. Havia já tantos lenços em casa, por que haveria de querer aquele? E logo um “verde-abacate”, que pouco combinava com as roupas que gostava de usar. Ele tentou aceitar a ideia, pensando que talvez aquele verde fosse um sinal de esperança, um desejo silencioso dela por uma saída mais aceitável, ou agora uma tentativa de mudar o roteiro, de a tragédia agora rebaixar-se à categoria de drama.

Assim que conseguiu, ele foi à loja e comprou o lenço. Era mesmo verde-abacate, como ela queria. Haveria de ficar feliz, de alimentar novamente suas esperanças. Não precisava mesmo combinar com nada.

Retornou para casa e a encontrou diferente. Um olhar perdido, uma sintaxe confusa, uma imobilidade desconhecida naquela mulher tão antes ativa. Ela nem olhou para o pacote que ele havia trazido. Parecia ter se esquecido do pedido feito tão recentemente.

Ela se distanciava a cada dia. Ele se aproximava cada dia mais. Afastava-se apenas para as necessidades, para um cigarro, costumeiro, e de vez em quando se via no quintal, nas longas noites, fazendo um acordo com os astros, pedindo sinais de que as coisas se reestabeleceriam (uma chuva de estrelas seria demais? uma única esperança pousando em câmera lenta em seu ombro? uma revoada de borboletas azuis?). Não, não havia um contrarregra a providenciar esses efeitos.

Ele buscava reconhecer nela a sua mãe, mas não a encontrava. Estava diante de uma outra pessoa, ou de alguém que esquece as falas no palco e instantaneamente parece uma outra personagem, muda naturalmente o semblante tentando encontrar o retorno, ou ouvir o ponto.

Não havia o retorno, ela permanecia calada à espera do ponto indicando-lhe a fala esquecida. Mas esse texto era desconhecido, não haveria ninguém para dizer-lhe as palavras que faltavam. Talvez retornasse ao momento da indicação do papel e escolhesse outro. Talvez quisesse agora outro texto. Mas já estava impregnada daquele papel imposto pela realidade, não haveria como retornar. Seu texto era agora algo confuso, como nessas peças modernas em que a inspiração parece vir de um sonho e que para serem entendidas exigem que o espectador adentre a sua atmosfera.

 

Se prepara, homem, sempre tão fraco!

Larga o tabaco, os vícios consomem!

Vê: os fados em sua direção.

Crês em oração? Relança os dados!

Não, ele não poderia entender. Via agora um acidente anunciado. Era como se visse seu bem mais amado dirigindo um carro a sua frente em direção à colisão, mas tudo isso em câmera lenta, muito lenta, sem a possibilidade de apertar o botão de pausar e de voltar a cena. Uma batida definida, a que se assiste aos poucos, sem nada poder fazer. Era o destino agindo irremediavelmente (Mas por quê? Ela não o desafiou. Onde teria errado? Em aceitar o papel? Por que, ó deuses, por que entenderam assim? Onde estava o orgulho da frágil heroína? Qual seu erro de julgamento? O acreditar na possiblidade de voltar atrás?). O acidente segue seu curso, se aproxima. Uma lentidão, desesperadora, demorada. Arrastada. Em câmera muito mais lenta, mas fatal.

Não, não mostra terrível a cena!

(Deixa o silêncio, sem cantilena!)

Ele se retirou no momento do choque, não veria aquela última cena. Não tomaria parte no último ato. Ainda que ela não tivesse visto nele uma lágrima sequer, era hora de isolar-se nas coxias e, afundado nas contidas lágrimas, torcer pelo fim, vingar-se do criador daquele texto inaceitável, com a sua ausência na cena final.

Lá permaneceu até o fechar das cortinas, até o momento em que se apagam as luzes do palco e tem início a desmontagem, em que se juntam os cacos que ficaram. Ele não ficou na fila da entrada, esperando os cumprimentos. Era um sentimento de discordância com o texto, de não aceitação do desfecho. Preferiu visitar o camarim dela e arrumar as suas coisas, dobrar os lenços e guardar suas lembranças, dispostas sobre a penteadeira iluminada.

. . .

(Nenhuma divindade maquinosa desceu em cena. Nada. A realidade tem seus efeitos próprios). A vizinhança estava em reza, em coro. Ele se limitou a retirar-lhe da cabeça o lenço verde-abacate (guarda!), a beijar-lhe a fronte e a despedir-se, antes de lançar o primeiro punhado de terra.