Prefaciando

Os contos em prosa e verso deste Baile a fantasia chegaram a mim como uma conquista pessoal. Novata nas paragens soteropolitanas em 2011, encantei- me com os discursos sobre Amarante, personagem favorita das crônicas do dia a dia de estudantes felizes da Universidade Federal da Bahia - UFBA. Encantei- me, então, com o autor-personagem, ao assistir a uma palestra sua. Procurei segui-lo, não nas redes, mas na vida. Havia um abismo. Outros grupos, outros departamentos. Paixão não correspondida, restava- me seguir o autor.

Em 2017, surpresa: ei-lo como organizador/ contemplador de minhas aulas sobre Análise Dialógica do Discurso. E, por teoria ou por magia, nossas vozes se encontram lá onde ecoam mais puras: no fazer ético e estético. Reconhecemo-nos em leituras, em aventuras, em posturas. E vem, então, o pedido: “Você quer se prefaciar comigo?” Eu me abismo, evidentemente. Ainda mais com o complemento: “Mesmo se não gostar, prefacie.”

Como resistir à dança com esses contos em prosa e verso, que se dão a leitoras e leitores como um novo jogo de amarelinha? No prelúdio, a voz do narrador já seduz e provoca cada outro a fazer do livro o seu livro, a escolher seu percurso de leitura. Não avisa, entretanto, do risco da vertigem: em cada elo, pistas de uma cronologia afetiva. O começo e o meio não existem, entendemos. Mas queremos juntar peças: a mãe, o filho, o pai – saiu ou não de casa? Quando nos convencemos da independência dos contos, pousam em nossos olhos a cor verde-abacate, os sapatos pretos, as maçãs, pistas de uma caça ao tesouro que insistem em (re)aparecer. E assim li o livro, sem a certeza de ver a mãe em todas as personagens femininas, o filho em todos os heróis, narradores ou não (mas eles estão lá!). Cacei vozes e encontrei marcadamente Cecília, Florbela. Um pouco mais escondidas, mas evidentes – ou transparentes! – Clarice, Elisa. E em meu quinhão de autoria, trago para o baile meus brincos de cereja, Mané Coco, Ruth Rocha e tantas misteriosas chamas de Umberto Eco reverberando num fantástico contador de contos que brincou, freou, pesou, pensou, morreu autor, nasceu contemplador e pariu o Baile.

Busque seus outros, você vai encontrar velhas amigas e amigos por aqui. Vai conhecer gente nova, vai se (re)conhecer. Impossível a quem já fez terapia não dividir o palco com Lúcia; difícil não se angustiar com A passageira da linha 33 e com De salto alto, fazem reviver perdas. Cada conto, uma dança. Procure seu fio condutor. O turbilhão de vozes que participam de minha conversa com este Baile é conduzido, confesso, pela eterna imagem da série Minha mãe morrendo, de Flávio de Carvalho. Pense bem antes de pesquisar na Web: as imagens são indeléveis e perturbadoras.

Sigamos lendo Amarante, sigamos lendo o mundo. Porque se tudo o que é vivo, morre, tudo o que está vivendo, está morrendo. Celebremos, pois, nosso gerúndio. O resto é particípio, moldura vazia. O Restante.

Adriana Pucci

Professora do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia