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Vai entender os tempos. E vai lá entender as mulheres. Tempo de hoje é quase tudo coisa só, tudo igual. Quem é quem nessa selva tão povoada da mesma coisa. Isso nem é pergunta, não fosse o ‘quem’ lá em cima, insistente. Ela nem pensava nessas coisas, embora tivesse um quê de profundidade, que quase ninguém conhecia. Também era dada, agora, ao prazer.

Depois de tempos sozinha, já adiantada no processo dos calores que toda mulher conhece, resolveu namorar. E não se deu de rogada, fez como quase todas as outras nessa situação, hoje em dia, claro!: arranjou um jeito de dar um jeito e deu-se aos prazeres com um jovenzinho.

Não que ele fosse lá tão jovem. É que os homens de hoje têm lá também uma idade mental que é coisa para se estudar. Era na verdade um tipo desses que a gente costuma chamar de brucutu, marombeiro, homem das cavernas moderno. E daqueles que, espertamente, costumam atrair (me perdoem) aquelas de idade chegada.

Todo mundo sabia que lá no fundo ele tirava proveito da situação. Claro que ela também deu seu jeito de ficar mais viçosa, enxuta. E claro que ela também tirou proveito da situação. E foi levando a relação, mesmo a contragosto da família e da filha já crescida, resultado de uma produção independente.

No início era só sexo, como quase sempre, aliás, nessa época estranha. E era, sem dúvida, um bom começo. Até que veio aquele calor desconhecido, aquela doença quase incurável que alguns conhecem por amor. E da parte dela. E veio também um desejo dele (e lá no fundo talvez dela também) de colocar mais um ingrediente nessa receita de bolo que começava a dar sinais de que estava a caminho de solar.

 

Ela aceitou o jogo e tomou até a iniciativa. Já modernizada (tinha que conhecer essas coisas que atraem os mais jovens), entrou na internet e procurou um site de relacionamento mais quente (um eufemismo para bordel mesmo). E lá tinha cardápio pronto, ao vivo e a cores. Ela selecionou a garota, aquela que, na sua companhia, desfrutaria o prazer de seu rapaz, o jovem desejoso dessa experiência à trois. Era mesmo sempre dela a iniciativa, até mesmo nesse momento de escolher uma mulher para seu macho. Também era dela a carteira cheia, e de lá sairiam as notas de tão caro programa. Claro que ela já estava no jogo, não podia recuar. E, a bem da verdade, queria também experimentar. Fez a ligação, marcou dia e horário e acertou o lugar. Não conseguiria mais recuar.

Ansiosa, acessava todos os dias aquela página da internet, preparando-se para estar bem à vontade com a atmosfera de coisas tão proibidas na mocidade. Olhava cada detalhe da moça, para que ela lhe parecesse íntima no dia em que abriria sua intimidade para mais de um.

O dia do encontro marcado foi naturalmente tenso. Aliviou-lhe a tensão a ida a uma dessas lojas que vendem produtos eróticos. Familiarizou-se com cremes e fantasias, com odores e texturas, com tamanhos e formatos. Tudo tão diferente. Tentou descansar à tarde, mas a inquietude de entrar em terreno novo a perturbava. Ou na verdade o desejo de viver logo aquela experiência, um desejo tão antes dele. E ela, agora, com esse querer amedrontador. Ainda olhou para uma caixa de pílulas de dormir e sentiu-se atraída à ideia de dormir profundamente e de acordar apenas no outro dia. Deixar tudo como estava e fingir que nada tinha acontecido. Apenas se revirou incontáveis vezes na cama, inquieta com a expectativa de como seria a noite. Pensava mesmo em como deveria reagir, em como cada um atuaria naquele momento em que os corpos se soltam, as almas desaparecem, e os desejos profundos vêm à tona.

Chegaram primeiro ao motel. Ele tomou uma dose de whisky e acendeu um cigarro. Ela foi ao banheiro e fechou a porta. Pouco se falaram. Ela saiu com a maquiagem bem retocada e com a lingerie nova que comprou. Ele já estava de cueca, fumando mais um cigarro à beira da banheira, numa área externa do quarto.

A campainha tocou. Ele apagou o cigarro e retornou ao quarto. A moça entrou. Jovem, bem vestida e sem muita enrolação. Pagamento adiantado, pediu um tempo no banheiro, enquanto os dois aguardavam na cama. A moça voltou, deitou-se junto ao rapaz e começaram a aquecer seus corpos, roçando-os, como se já se conhecessem e dispensassem palavras introdutórias. A outra, que na verdade não era mesmo a outra, mas a mulher do rapaz, limitou-se a observar. Queria mesmo ver aquela moça deleitando-se como ela por cima daquele homem. Queria ver sua virilidade possuindo-a, tocando-lhe os seios (ah, os seios!), penetrando-a com a voracidade costumeira dele. Queria ouvir os gemidos dela, seus gritos de prazer, seus pedidos obscenos. Queria ver aquele homem enlouquecido, poderosamente dentro dela.

O rapaz tira a moça de cima dele. Protege- se. Revira-a sobre a cama e se joga sobre ela. Com a agilidade costumeira, penetra-a, apalpando-a pela cintura em movimentos agora rápidos, roçando seu baixo corpo sobre o dela, enquanto lhe diz as coisas que gostava de dizer nessa hora: “Me peça mais, pede para eu te comer, pede para eu te chamar de puta, de vagabunda, de minha cachorra.” Ela hesita: “Gosto não!” A outra (a que não era bem a outra) incentiva. Ele bem excitado continua: “Vem, sua vadia, sente esse homem todo dentro de você, pede, vá, pede mais, pede pra eu te chamar de puta, de vagaba, de cachorra.”

A moça, estranhamente, empurra-o para fora de si, levanta-se da cama e começa a se vestir. Ele, ainda rijo, não entendia seu movimento. Não havia terminado o que se propusera a fazer e ainda esperava muito daquela noite. A moça olhou bem para seus olhos, olhou para os olhos de sua mulher e não hesitou: “Você trata assim a sua mulher, a mim não. Eu vou lá deixar um homem me chamar de puta.” Pegou suas coisas, bateu a porta.