Monstro

Hoje há uma festa para ir. Hoje, por que apenas hoje, estas portas escancaradas de meu guarda-roupas me inquietam, perturbam? Há um sapato preto na sapateira logo abaixo, único em meio a tantos outros de cor variada, parente do marrom, há roupas de todas as cores nos cabides e são muitas. Mas hoje primeira vez de questionar escolha. Por que apenas hoje estas portas escancaradas de meu guarda-roupas me inquietam, perturbam? Por que olho para tudo e não me encontro, como se tivesse invadido a intimidade de uma outra pessoa? Mas confiro no espelho preso à porta direita do móvel: sou eu mesmo, talvez com mais uma ruga acenando e mais um ou outro cintilo de um fio plúmbeo da antes tão negra cabeleira.

Uma camisa preta, de tecido fino, transparente, quase me encanta. Tento, mas não me cabe mais essa camisa. E ontem era tão perfeita! De ontem para hoje teria engordado? Insisto ainda naqueles velhos sapatos marrons, bem surrados, diários, companheiros (nunca gostei de sapatos pretos). Estranhamente não servem mais, como apertam agora os pés, espremem os dedos. E minha Mãe que dizia que depois de um tempo nossos pés não crescem. Ela que sempre teve razão.

 

Ainda paro alguns momentos olhando meu velho guarda-roupas escancarado. Há tantas peças, do 38 ao 46, épocas diferentes e corpo vai junto, ora gordo, ora magro. Diferentes formas de mim mesmo. Eu devia estar já acostumado.

 

Uma calça xadrez, antiga, faz lembrar o dia da primeira entrevista de emprego. Nunca gostei dessa calça. E aquele emprego? O que eu queria mesmo trabalhando numa fábrica de bonecos? Por que teria escolhido trabalhar ali? Só sei que fui. Era importante continuar seguindo, como pudesse. Bem que fiz os mais bonitos artefatos, mas não podia facilmente fugir da ideia de coisa em cópia. Se bem que cheguei a me negar a produzir uma série de engravatados, um pedido insano da dona da fábrica, que achava que inspiraria a criançada, em seu projeto de futuro, projeto dela. De vez em quando, eu dava meu jeito e, sem ninguém notar, desenhava um ou outro boneco autêntico, sem forma pronta, com menos cara de marionetes. E, ao voltar para casa, sempre que podia, levava comigo, escondido, essa criação proibida, mas ela nem chegava em casa. No meio do caminho, dava de presente pra Dona Domitília, uma velha sozinha, da rua de trás, quase vizinha. Ela sempre esperava aqueles dias em que minha alma inspirava a criação de um ou outro boneco diferente. Sempre tive vontade de ver a coleção de bonecos de Domitília, minha cria completa, mas ninguém tinha muita permissão, nem para se dirigir a ela. A velha, sisuda, apenas aceitava esticar a mão e esperar, vez ou outra, mais um boneco. Nunca gostei daquele emprego, mas fiquei bons duros anos lá. E essa calça, meu Deus, como pude tê-la comprado?

 

Num cabide mais afastado, a calça de linho branco, tão encardida agora, tão sem vida quanto eu, perdido nas teias dos tecidos à minha frente. Houve um motivo importante para estreá-la: o dia em que passei a dirigir a casa de fazer bonecos (a dona da fábrica precisava-se cuidar). Ela era perfeita para mim, meio solta, clara e elegante, digna do cargo, tão perfeita quanto a chance de poder então desenhar oficialmente meus próprios bonecos, sem muita série, com um pouco de alma, não iguais, mas como aqueles secretos, guardados com a velha senhora, minha silenciosa cúmplice.

 

Lembro que tentei sem desânimo, alma empenhada, desenhar e desenhar. Era estranho, era inesperado não mais conseguir voar a mente, livrar pensamento, de cabeça solta, para fazer o que quiser, sem autorização. Foi triste ter que copiar um dos primeiros bonecos da coleção de Dona Domitília, o que fiz num dia meio-sem-cor-meio-sem-vida, desses em que a gente tem vontade de ser Deus e inventar tudo de novo, de outro jeito, ou de deixar vida de lado, sem nem pensar que Deus existe. Pois foi um dos melhores bonecos que dei à velha. Conseguia me lembrar de quase todos os detalhes, dos entalhes, menos a expressão do rosto. Saiu, sem muita opção, toda uma série de bonecos sem rosto. Eram estranhos, mas até houve quem gostasse, achando que animava a criatividade da meninada, que tinha a chance de pintar o rosto que quisesse. A segunda edição da série passou a ter até uns lápis de cor para que se pintassem o rosto das criaturas.

 

Nunca gostei daqueles bonecos. No fundo tinha vontade, recurso último, de invadir a casa de Dona Domitília e tentar desenhar alguns dos modelos originais, com a expressão primeira gravada na face, da época em que era preso ao trabalho em série, mas era livre para criar escondido, subversiva criação. Livre. Tinha vontade mesmo era de poder inventar novamente cada boneco diferente do outro, como fazia antes de ter de vestir esta maldita calça branca de linho, encardida, aqui nas minhas mãos.

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Hoje, por que apenas hoje, estas portas escancaradas de meu guarda-roupas me inquietam, perturbam? Hoje há uma festa para ir: eu escolhi ser eu mesmo, mas não sei que roupa vestir. Olho de novo pro espelho: como é ir de mim mesmo? Pego uma calça qualquer (calça nunca tem muita importância) e uma camisa azul, largada num canto. Nem sei quando a comprei ou se alguém a deixou aqui em casa, ou se foi um presente qualquer (não de aniversário, pois tenho dificuldades com aniversários). Só sei que ela me é a mais estranha. Visto-a. Não sei bem por que, mas me sinto à vontade dentro dela.

 

Mas estaria suja esta camisa? (Oh! O que faz aqui esta bolinha de confete, única aqui escondida?) com pontos quase imperceptíveis de alguma purpurina, um gracioso vestígio...? Uma boa lembrança? E estaria ainda com um leve cheiro, um resquício, protegido misteriosamente, sem evaporar no escuro do guarda-roupa, sem se contaminar com o cheiro das outras roupas? E por que me vejo agora procurando encontrar, de repente, o cheiro daquele carnaval, em que, cansado do bloco, sem me encontrar ali, corri das cordas, e aquele rapaz, fora do circuito, me ofereceu a sua camisa (esta agora comigo) em troca da minha mortalha, porque queria muito fazer parte da festa. Dei-lhe minha fantasia, e ele, a sua camisa. Nos trocamos ali mesmo, no meio do povo espremido, no calor da multidão. Eu era ninguém. Como aqueles bonecos que inventava. Mas alguma coisa naquela camisa me fez ir para casa diferente naquele dia: aquele cheiro, aquela rápida troca no meio de todo mundo (rápida para ele), o vestir a roupa de outro homem, desconhecido (uma mudança de sensações para mim). Levantei o peito, estranhamente orgulhoso do singelo traje, e fui abrindo caminho no meio do povo. Eu era outro.

 

(Pronto?) Pronto! Fecho as portas de meu guarda-roupas e saio com esta calça (uma qualquer) e com a camisa azul (o mesmo azul da primeira vista pro mar!). Além do mais, o azul é lindo!