Fantasia para um ano novo

(Esta história vai começar com Era uma vez, porque há um tempo de nossa existência que a gente só acredita em histórias que começam assim. Mas a história já começou e o Era uma vez não era o início. Então vamos começar de novo...)

 

Era uma vez uma menina, dessas meninas que todo mundo sempre sabe o nome, porque elas não conseguem ficar transparentes (você deve imaginar o que isso quer dizer!). Então o nome da menina era Ruth, com TH mesmo, “que é pra car mais chique”, como ela mesma dizia. E dizia muita coisa essa menina danada. Não deixava ninguém falar, com aquela língua querendo pular para fora a toda hora. Língua de sogra, nada, língua de menina mesmo, e língua de RuTH, com TH (assim quase explodindo). Não precisava chegar aos lugares, porque ela já estava lá. Aliás, sempre estava em tudo quanto era canto. Seria mágica a Ruth também? Não sei. Nunca se soube. Na escola, ela não percebia, de início, só de início mesmo, que muitas meninas tinham inveja dela, não inveja das coisas que fazia, mas uma inveja de ser notada. É claro que a Ruth incomodava, era muito diferente, cheia de trapalhadas e raciocínios muito exclusivos. E de vez em quando ainda ouvia dizerem que ela precisava mudar. De início não se incomodava e se soltava, no melhor estilo Ruth.

 

Um dia Ruth se cansou, não de si mesma, mas das queixas que ouvia. O fato é que ela escutou uma dessas maluquices que gente grande costuma falar. Aliás não dá para saber se Ruth se cansou primeiro e ouviu a maluquice depois ou se foi o inverso (ela nunca contou). Mas Ruth ouviu a conversa:

— Dizem que, quando a gente faz uma coisa no primeiro dia do ano, a gente vai fazer a mesma coisa o ano todo. O primeiro dia do ano é mágico.

Ruth, mágica que também deveria ser, achou que era um bom dia para começar uma vida nova. O primeiro dia do ano. Estava cansada de ser do jeito que era. E de tudo que ouvia sobre suas trapalhices (era assim que Ruth dizia de suas travessuras, inventando palavras novas). Nesse cansaço, Ruth resolve testar a promessa de primeiro dia do ano e fez uma lista do que iria mudar. Era para, quando chegar o dia de prometer, ela não esquecer (Ruth era mesmo danada, mas isso você já sabe). Essa lista ela nunca divulgou (até eu nunca soube). Mas dava para saber o que ela listou, porque por algumas semanas ela estava diferente. Diferente mesmo, até quando um desconhecido perguntava seu nome, a gente nem ouvia o TH de Ruth. Era quase um Rute assim, normal mesmo. E triste.

Ruth também gostava de experimentar. E experimentou a Rute por algum tempo. Durou até meados de fevereiro, quando chegou o carnaval, porque Ruth se fantasiou de si mesma e foi ao baile do colégio. Ela era tão ela mesma que a própria felicidade sentiria inveja. Naquele dia, me apaixonei (mas isso eu nunca tinha contado para ninguém!). Era uma vez o amor...