De fraque, sem gravata, o menino

Diferente dos outros, chegou à escola mais incomodado. Também tinha só dois anos e pouco e parecia já desconfiar dos rituais da vida. Ir à escola era mesmo coisa sem explicação. Casa estranha, de muros altos e gente muito esquisita. Havia também quem achasse ele o esquisito: cabeça grande, cabelos arruivados, olhos chegados a graúdos, com aqueles óculos que a gente costuma chamar de fundo de garrafa, e uma leve inclinação no corpo ainda franzino, dando a sensação de sinal de corcunda, mas pouco nítida. Momento primeiro vendo o menino não dava para não pensar no que se pode chamar de estranho. Um estranho estranho, porque ele tinha lá também sua carinha doce. Havia mesmo algo de doce, olhando fundo.

 

Mordia toda a meninada da classe. Era, desse modo, fácil identificar algum seu colega. Havia sempre um sinal no braço, com os dentinhos bem marcados, e houve até bochecha que não foi poupada, uma ou duas. Era assim também um menino marcante, e tinha a maravilhosa habilidade de não deixar ninguém se afastar dele. Todo mundo gostava mesmo daquele menino. Estranhamente. Muito estranhamente. É porque tinha lá um jeito menino-de-dois-anos-e-pouco e uma doçura que escapulia de seu real desejo de gritar a necessidade de não estar na escola.

 

Era sempre grande a saudade da mãe. E por causa dela, por não aguardar muito o seu atraso na hora de lhe salvar do sufoco novo da escola, causava espanto com a criatividade dos nomes feios que dava às outras mães que vinham na hora certa buscar seus menores. Ele ficava na grade, na entrada da sala, uma gradezinha para proteger menino fujão, e, cada vez que uma mãe aparecia e que não era a sua, ele vinha com sua lista, que não acabava nunca, daqueles maiores palavrões que todo mundo conhece, e que já disse algum dia, mas que não podia se supor sair da boca de criança tão pequena:

 

— Sua isso...


— Sua aquilo...

— Sua aquilo outro...

E não terminava nunca, somente depois que cada uma ia embora, ruborizada e espantada com o novo mundo que estava nascendo, com a geração vindo e gritando coisa feia. Mas era de algum jeito inocente e terno mesmo o menino. E teve dia certo para deixar muito claro que bem lá por dentro havia uma coisa de grande doçura, muito maior do que o que se podia notar nos outros, que nem mordiam, nem falavam palavrão.

Houve dia para ir plantar as sementes na horta. Não, não era o interesse do pequeno menino a tarefa da semente. Era tão sem graça ainda a semente, tão crespa, tão sem vida, que o menino não podia imaginar o milagre da própria vida presa lá dentro. Mas a formiga, ah, a formiga!, foi o acontecimento para ele. Num canto da horta, um formigueiro discreto, com uma fileira de formigas no serviço, e a primeira pergunta do menino, quase pergunta de escola, não fosse a curiosidade tão verdadeira e tão necessária:

— Por que é que elas não caem, carregando a folha grande?

A pergunta do menino era tão dele que a professora não ouviu. A plantação da semente era o interesse de toda a classe, que já começava a se dividir, depois que o menino começou a repetir freneticamente e sem parar a mesma pergunta:

 

— Por que é que elas não caem, carregando a folha grande?

— Por que é que elas não caem, carregando a folha grande?

Era hora de ir pro parquinho, e a pergunta ficou mesmo com o menino. Toda a turma correu para lavar as mãos e ir para o parque, que ficava ao lado da horta. Mas o pequeno lá permaneceu, com a pergunta mais científica do mundo, de um jeito tão pesquisador que quase dava a impressão de que estava mesmo era esperando a resposta da própria formiga, como fazem os pesquisadores, que esperam de seus objetos de pesquisa as respostas para as questões não respondidas pela humanidade.

 

A pergunta ficou com o menino, junto a tantas outras. Mas o menino também dava respostas, mesmo que a ele nada fosse perguntado, desde que o assunto fosse “bichinhos”.

— Você sabia que os sapinhos quando pequenos são chamados de girinos? Bastava alguém prestar atenção a seu assunto que logo dava as mãos e continuava a conversa:

— Os girinos são sapinhos que ainda não cresceram, sapinhos que ainda não são sapinhos. Foi Papai que me ensinou. Dizia orgulhoso, com ares de quem tinha aprendido a coisa mais importante do mundo e fazia questão de ensinar, até para quem aquele assunto não parecia nada interessante.

A surpresa maior do menino foi no dia em que foi feita a colheita da horta para temperar uma macarronada. Nada de interessante de novo na horta, nem o formigueiro, que já tinha sido levado pela chuva (motivo de uma série de mais mil mesmas perguntas sobre “por que é que o formigueiro desapareceu”). Mas, por trás das plantas, no canto da horta, estava o bicho mais estranho do mundo: uma esperança de um verde novo para o menino (ele ainda era bem pequeno para reconhecer aquele verde-abacate; naquele momento verde era apenas verde). Lá estava aquele bicho, mal camuflado no meio do verde escuro das plantas. O menino não se contentou em perguntar a si mesmo:

— Que bichinho é aquele parecido com folha, professora? Demorou um pouco a segunda pergunta, que não foi mais a primeira repetida, como fazia.

— Esperança!? Que nome bonito, disse o menino, que nem sabia direito ainda a inspiração do nome daquele bicho tão diferente.

— É bonita mesmo a esperança! Falou quase pra dentro, já investigando a ausência de uma das suas patas, motivo de dor para o menino, que não conseguia aceitar algum grave acidente que ela devia ter sofrido.

— É bonita mesmo a esperança, eu vou cuidar dela para mim. Diferente dos outros meninos, ele deixava o bicho andar pelos seus braços, com uma das patas traseiras arrancadas. Aí não poupou mais a professora:

— A esperança consegue voar assim? Ela vai aparecer aqui todos os dias? E se ela perder a outra patinha? Algum outro bichinho gosta de comer esperança? (O menino nunca aceitou muito essa ideia de cadeia alimentar.)

 

Mais uma vez não teve tantas respostas quanto mereciam suas perguntas. E nem foi culpa da professora. Uma outra chuva, de início de ano letivo, se encarregou de fazer todo mundo entrar, e a professora teve que levar o menino, arrastado, gritando, gritando mesmo, como criança quando vai para a escola no primeiro dia.

— Eu quero a minha esperança. Ela não pode pegar chuva. Se uma bolinha de chuva cair nas asinhas dela, ela vai morrer igual ao inseto que eu tinha lá em casa. Eu tenho que salvar a esperança. Eram as coisas que o menino gritava. E repetia depois, já tão docemente, na tentativa de seduzir algum adulto sensível à sua dor.

O jardineiro aceitou a dor do menino e, depois da chuva, o levou de volta ao espaço da horta. Ele rodou, rodou depressa tudo quanto é canto.

— Vai ser difícil achar ela no meio das folhas verdes! O jardineiro ouvia tudo com respeito e o ajudava a procurar como se aquela fosse a tarefa mais importante do mundo.

Lá, debaixo dos pés de manjericão, lá estava ela, tão soberba para o menino, com aquele traje imponente, ainda que sem uma pata.

— Ela vai conseguir voar? Ela não morreu com as bolinhas da chuva? E se ela voar para longe, eu vou perder minha esperança? O jardineiro nem precisava responder, só olhava para o menino e eles se entendiam. A esperança voou, e o menino só olhou, num olhar que combinava admiração e medo, e voltou-se para o jardineiro:

— Ela volta amanhã? Ela volta?

No outro dia, chegou cedo à escola e nem deu muitos beijos na mãe. Correu logo para a horta. Não havia mais a esperança. Tudo tão verde, mas ela não estava lá. Ele fuçou todos os cantos da horta, mas não a viu.

— Ela pode estar em outro lugar da escola, escondida. Ou talvez não goste muito da escola (pensava assim, prodigiosamente).

 

Ao cruzar o caminho em direção ao pátio, o menino vê, num balé em câmera lenta, uma borboleta azul, tão brilhante o azul que chamava os olhos. O menino ficou encantado com a borboleta. Tão encantado quanto no dia anterior, em que viu pela primeira vez a esperança. Mas já estava desconfiado desses bichinhos que costumam voar. E desaparecer.