rio seco

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Houve dia em que desejo foi forte. Ter uma mulher, possuir, invadir, entrar as entranhas. Fosse qual fosse a mulher, menino queria tes­tar o homem. E, naquele dia, o homem lá den­tro queria lançar-se corpo fora, impor-se. Permitir-se a ardência.

 

Rio por perto, era nadar pra esfriar corpo e acomodar inquietação já visível. Nu, água pura, corpo ainda rijo, nada disfarçando von­tade. Lá na frente, perto das pedras, pureza da água é manchada. Fidó, mulher da vida, lavadeira, mãe de Preto, amigo do menino, quarava roupa na grama, à beira do rio, enxaguava outro monte. Pensamento ruim toma menino: queria Fidó, queria tê-la. Esqueceu culpa, não importava a amizade diante do desejo da experiência.

Menino buscou coragem, não hesitou mui­to, dirigiu-se pra perto da mulher. Permane­ceu ainda debaixo d'água e gaguejou: “Fidó, quer quanto?”. Pergunta de mau gosto para quem com gosto queria pedir: “Fidó, dá a vida”. Ela fingiu que não ouviu e continuou a função, a outra. De novo, gaguejando e já trêmulo de frio, a pergunta: “Fidó, quer quanto?”. Mulher da vida, papel ciente, adiou. “Deixa passar só mais uns dias.”

Contrato acertado, menino não mais dormia e todo dia interesse por rio. Dinheiro conseguido, bem guardado, sempre preso na mão, esperando a hora de pagar pela primeira escolha. Pergunta diária, resposta igual: “Deixa passar só mais uns dias”. Menino, vergonha recuperada, não entendia e voltava cabisbaixo pra casa. Fidó, mulher da vida, guardava a vida do menino nas mãos que esfregavam a roupa, branca, limpinha, quarando ao sol. Até dia que a mulher decide a vida do menino: “Vem amanhã!”.

 

Menino era só desejo, tentação, sonhos. Sonhos acordados, ansioso que estava. Manhã seguinte, lá, horário vezeiro. Menino espera, treme, água fria, medo. Dia inteiro lá, só tentou comer uma manga roubada de raiva num quintal perto do rio. Uma mordida bastou para aquietar o estômago. A fome era outra. Entardece, Fidó não vem. Menino não sabe sentimento lá dentro: alívio, angústia, tudo misturado. Era esperar dia seguinte.

Dia seguinte, nada de Fidó. Dia seguinte ao dia seguinte e os demais seguintes, Fidó não apareceu. Mês depois, menino, desesperançoso, volta ao rio. Roupa conhecida no coradouro dá sinal.: “Fidó voltou”. Menino se aproxima da parte mais espumosa do rio, cheia de pedras, canto da lavadeira: “Ainda tou esperando, Fidó!". E a mulher apenas: “Posso não, tou operada”.

Zanga de menino dura tempo, “operação maldita essa”. Necessário distanciar do rio por enquanto. Menino, esperança guardada, quando volta ao rio, ouve da mulher a mesma resposta, pronta, como se operação curasse nunca, como se desistisse da função logo na vez do menino, como se desculpa fosse.

Experiência do menino foi outra, não Fidó. Culpa foi só do desejo. Tempo grande já passado, diz que a lavadeira desistiu do rio, vende-se mais não. Seja qual for o serviço, pedido recebe resposta única, misteriosa: “Posso não, tou operada”.