papel de bala

capa-ainda em flor.jpg

É botar meio quilo de açúcar, cinco gemas, cem gramas de manteiga,
dois cocos, ralados de costas, uma medida de leite condensado, outra de leite de gado.
Tudo junto. Misturado. É levar ao fogo, mexer até soltar do fundo da panela.
Depois é separar com uma colher de chá as pequenas porções
numa bandeja coberta de açúcar.
Aí espera esfriar e enrola com a palma das mãos
formando uma bolinha bem redonda.
Depois embrulha no papel de bala
e pode servir.

 

Receita de beijo de Dona Izabel


Só sei que era bonito o tal do papel e cheirava cheiro de vida e de festa. Só sei que gostava das cores, do azul e prateado, papel todo picotado, lisinho no aniversário de Rosa e já amassado no meu. Só não sei por que beijo, por que papel de beijo. Mas gostava do nome. Papel de beijo. Gostava do tal do papel. Gostava do cheiro de coco, ralado de costas. Parece que aquele cheiro só se fazia se o coco fosse mesmo ralado de costas. E gostava das festas de aniversário de Rosa, Rosinha de Dona Sofia. A casa tinha mesmo cheiro de festa, cheiro que não existe mais ou nariz que não é mais o mesmo. Era daquelas festas com cheiro de docinho de coco, de olho de sogra e de beijo. Nada de muito sofisticado. Dona Sofia é que era mãe. Eu, menino, adorava ajudar a fazer as festas de Rosa. Era como se tivesse fazendo a minha, o meu aniversário, as bandejas cheinhas de beijo com o papel pendurado, arco-íris solto na mesa.

Todo ano era assim, era setembro chegar e meu coração se enchia de alegria, aguardando o chamado de Dona Sofia, “vem ajudar na festa?”, “vou, vou”. E só depois, já com a casa toda pronta pra receber os convidados: “você pode vir também pra festa de Rosinha”. Eu me sentia o convidado mais ilustre, era melhor que receber o convite com um mês de antecedência, como todo mundo fazia questão. Eu queria mesmo era fazer parte, estar ali, enrolar os beijos bem enroladinhos pra depois dizer a todo mundo na hora da festa: “fui eu que fiz”. Bastava.

E bastava também catar todos os papéis jogados pelo chão, tapete colorido que ficava, desamassar, tirar o papel do estado de festa, alisar até ficar bem lisinho. Depois sim, aqueles papéis não eram mais de Rosa, eram meus, só meus, guardados. Canto certo, segredoso, só pra eles. Mas todo mundo estranhava todo ano, “que foi, menino, aí catando papel”. Tempo passado, neto de Ismael era apenas “menino”, nem nome tinha. Mas o menino era o dono dos papéis, coisa simples, de pouca importância. Tudo. Porque era o desejo. O bastante.

Tempo passa, coisa muda. Setembro chega, alegria de novo. Motivo. Dona Sofia não chama, nem pra ajudar. “Mãe, posso ir na casa de Dona Sofia?”, “Fazer o quê? Vai não”. O silêncio da dona da festa era um perguntar sem fim, a mim mesmo, um lembrete no ouvido, estrondo, de tanto que incomodava. De longe, festa de Rosa só de longe, sem cheiros, sem enrolar o papel. “Sem convite filho meu não vai”, Mãe falava assim, orgulhosa que era. Passava na frente da casa, na esperança de ser visto, lembrado. A vida parecia só caber ali dentro. Um minuto só ali e eu não queria mais nada. Bastava. Olho nenhum viu o menino, restou ver a festa de longe. O povo que passava, convidado, parecia que convidava, “vai não, Zé?”, “Vou, mais tarde”. Pra que explicação? Ninguém precisava saber. Cá fora nada me interessava, toda a vida era lá, inteira, completa. Mas bastou olhar, ver de longe e o menino se deu por satisfeito. Bastava.

Noite adentro, festa acaba. De manhã era olhar pra calçada da casa de Dona Sofia e ver o quadro que a festa faz. Pinceladas de papel azul, rosa, prateado, pra tudo quanto é lado. Quantos lados. Restava catar os papéis, alisar um a um, esticar. Agora eles não são mais do aniversário de Rosinha, são papéis de bala, meus. Nada mais, só os papéis.

Setembro passa, menino faz ano, 9. Dezembro 31, sempre cara de festa sem nunca ter sido. Nunca a festa, nunca o bolo, nunca, nenhuma foto, nada pra memória, só a cena do papel azul e prateado. Na casa do menino teve festa: como em todos os anos, era amassar de novo o papel guardado, enrolar, mas só um pouco, e jogar na frente da casa, espalhadinho, bem verdadeiro, o quadro só do menino. Bastava. Todos os anos.