nelvira turisco

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Todos os dias acordava cedo, vassoura de palha na mão, varre calçada limpa, sempre limpa, porque gente da cidade não aceitava passar no passeio da casa. Código de cidade pequena funciona: inimigo respeita calçada. Corcunda e velha, cara enrugada, Nelvira era a estranha, isolada, inimiga do mundo. Cara braba, dura, seca, atraía malquereres. Era a cidade contra Nelvira, e Nelvira só, dentro de casa.

Idade de Nelvira é mistério. Povo sequer sabe quando lá veio parar. Mas todo mundo sabia sobrenome: Turisco, Nelvira Turisco. Quando deram por conta, existia já lá a mulher, sozinha. Para gente grande, coisa ruim, sem princípio nem fim. Meninada fazia utilidade: era bruxa necessária, pra povoar imaginação. Medo maior era errar no caminho da rua e pisar no passeio. Velha tinha quarto na casa pra esconder menino. E todo mundo fantasiava, pensando no quarto reservado, quase coisa de história de criança.

 

Gente grande tirava proveito. Bastava menino qualquer fazer traquinagem, sentença certa: “Quer ir pra casa de Nelvira?”. Era mais horror que mão levantada com sandália em punho. Se traquinagem fosse mais perigosa, sentença era completa: “Vou te dar pra Nelvira Turisco”.

Quando menino crescia, gostava sempre de desafiar. Brincadeira era ver quem tinha coragem de subir na calçada da casa de Nelvira. Desafio de poucos, como brincar de esconde-esconde em cemitério. Juntava os de mais decisão na frente; os outros, olhos ligados quando algum ensaiava dar o pulo e sair correndo. Da casa, a velha, apenas olhava, carrancuda na janela, nada dizia, a não ser o que os meninos liam na expressão do rosto. Vez ou outra, imagem desaparecia, meninada alucinada gritava a correr tudo quanto é lado, esvaziava rua.

Houve dia que passeio da casa não viu vassoura. Primeiro dia ninguém notou. Dias correram. Gente discutia a ausência. Aposta era gorda: “Tá doente!”, “Bebeu do próprio veneno!”. Só meninada, quando brincava, sentia falta de imagem na janela. Não tinha mais graça correr.

Gente reuniu na frente da casa, em alvoroço. Decisão de entrar foi tema de confusão. Só polícia, dever de ofício, fez sua vez. Ninguém mais entrou. Depois a noticia: “Nelvira partiu”. Corpo jogado, vassoura na mão. Dezenas de gatos velavam a velha, desconfiados, silenciosos.

Desfeito o mistério, interesse esvazia a calçada, pouco pisada. Ninguém entrou. Ninguém quis ver. Caixão foi ordinário, doação da prefeitura, presente único, último.

Duas cadeiras, uma de um lado e outra de outro, escoram o caixão na sala de visita. Visita nenhuma, nem agora. Na porta da casa, policial faz plantão, vigilância desnecessária. Ninguém se prontificou a carregar o caixão, pra seguir caminho de cemitério. Pra enterro de Nelvira, polícia requisitou gente, quatro pessoas, uma pra cada alça. Não por causa da honra, não por causa da misericórdia, caixão sai carregado por obrigação.

Nelvira vai pra enterro, sem flor, sem choro, sem oração. Estranhamente, cidade toda sai na janela, curiosa. Atrás do caixão, silenciosos, mistério nos olhos, gatos em procissão.