o filho do meio

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Para Alexandre

 

Eram cinco. E havia o do meio. Conta certa, para ter meio. Meio é mais que meio, é centro. É mundo ao redor. Mas meio tem lá seus desconfortos. No meio, sempre ficou o Menino. Nem pequeno nem grande, um menino que durou, dura. Não era o primogênito, esperado, querido, sonhado. Não era o caçula, derradeiro, última esperança. Era o do meio. Só isso.

No meio da casa, o menino andava, sem ser visto, pouco notado. Nem sabia ainda por que, mas o menino deu lá seu jeito de ir vivendo. Havia um olho que olhava sempre o menino, quase velava, protegia. Ficava no alto, sereno, sublime. No São João, trazia os fogos, embalados em papel de embrulho, rosa, pardo, variava a cada ano, mas todo ano tinha foguete, festa. Tinha pente de presente de Natal e bola pele de ovo, frágil, colorida. Mas era do olho que olhava o menino. Era de valor.

O problema é que o menino era estranho para o resto da casa. O menino não crescia. Estudava, aprendia, sabia de tudo, de quase tudo, mas era sempre um menino, pequeno. Incomodava. Já grande, brincava só com a meninada, gude, triângulo, correr na chuva, catar tanajura. “Pra que crescer”, pensava o menino, “e não mais catar tanajura, jogar na garrafa e depois soltar tudo, só pra catar de novo?”

Menino ainda incomodou mais e trouxe desânimo pro resto da casa. Primeiro foi a vez do segundo: lá pela sexta série da escola, ficou pra trás. Bateu vergonha ver o do meio passar. O segundo desistiu. Envergonhado, ficou em casa, não mais saiu.

Depois o primeiro, não teve jeito, teve que cumprir sina. Também pra trás, viu o menino seguir o caminho. Sem jeito, resolveu correr mundo e levou o segundo. Menino não imagina que ia ser o homem da casa. Era coisa de muita responsabilidade: não queria ser pai, bastava o menino. Ficou na casa, o menino, com a mãe e os dois mais novos, que mais tarde seguiram os outros: mesmo caminho, mesmo destino.

Naquela época, 16, menino achou amizade mesmo. O amigo vivia dificuldade, pai alcoólatra, mãe sumida, mas o menino era de família inimiga. Briga sem razão, nunca explicada. E um era aceito na casa do outro, estranho que fosse. Era outro tempo para o menino. Tempo de aprender o que importava, viveu a vida, fora de casa. Quando dentro, ajudava na cozinha, na arrumação. E molhava as plantas, tarefa quase escolhida, beleza pra ver.

Pouco falava do que sentia, a não ser para o amigo, que não importava com seu tamanho pequeno na estranha cabeça grande, coisa desproporcional, esquisita. Amizade até que durou e ficou muito tempo na cabeça do menino. Mesmo depois que houve viagem sem despedida. Mesmo ainda. Cidade ficou vazia, brincadeira perdeu a graça, nem mais chovia pra brincar de triângulo, nem pra convidar tanajura para a alegria da caçada do menino. Era tempo de seca, de pouca flor no jardim, vida sem beleza pra ver.

Um dia, Menino também teve que sair, nem escolheu. Um forno providenciado, embrulhado em jornal, como banana que tem que amarelar mais cedo. Entrou no ônibus e foi destino incerto. Só sabia que era pra longe.