a passos rápidos

capa-ainda em flor.jpg

Inimizade, a gente aprende cedo: “Não é coisa que presta". Diz assim. Quando amigo, nem tanto. Inimigo fosse, era de verdade. E povo de casa tinha lá suas desavenças. Causa, vez ou outra, era clara: “Falou mal de Zezé”. A velha, empregada de favor, nem ligava, mas motivo maior não tinha, era inimizade certa. Família também ficava inimiga de outra, porque palavra qualquer não foi bem entendida. Briga duradoura tinha de causa a política. Dois partidos dividiam a cidade. E sempre havia alguém, de um lado ou de outro, que fazia besteira: trocar de partido, crime inaceitável.

Menino nascia herdando a briga e lição primeira, depois de aprender a caminhar, cedo entendia: pisar na calçada de inimigo não pode. Calçada de inimigo, inimigo mesmo, era coisa de respeito, valorizada. E para sempre. Era andar pela cidade sempre em linha reta: passeio de Dona Rita, passeio de Dona Edite, passeio de Dona Judite. Aí a reta era bruscamente finalizada. Menino tinha que fazer a dobra perfeita, como quem vai contornando perfeitamente um quadrado. E as esquinas tinham que ser bem marcadas. Povo da cidade tinha que perceber. Não bastava andar pela rua, esvaziada ainda de carro, tinha que ser pelo passeio, pelas calçadas, com as retas e dobras, necessárias. Nada de curva.

Mãe de menino tinha lá seu temperamento. Boa, brava. Quando insatisfeita ficava, razão qualquer, era correr, correr muito pra não receber na testa fosse o que fosse. Rua ajudava, jardim grande na frente da casa, circuito perfeito para a corrida. Mãe não se dava de rogada e corria atrás. As janelas sorriam, enquanto menino chorava o ridículo do espetáculo. Às vezes, por dentro também ria, como se agradecesse a torcida. Circuito durava, às vezes, dependia da força da raiva da mãe, da fraqueza da desistência do menino ou da vontade de pirraçar e subir calçada proibida, passeio de inimigo, fosse qual fosse, pobre ou rico.

 

Menino, já cansado, tinha de tirar proveito mesmo dos passeios, das calçadas. Corre passeio de Dona Rita. Lá vem Mãe atrás. Corre passeio de Dona Edite. Mesma coisa, Mãe atrás. Corre passeio de Dona Judite. Mãe freia bruscamente, reta finalizada, respeitada. Zangada, olhava pra menino, acolhido pela dona da calçada. Menino pouco falava, mas brabeza de Mãe era conhecida. Inimigo entendia. Menino tinha autorização de quebrar acordo principal: pisar calçada proibida.

 

Era esperar mudança de temperamento. Tempo depois da mãe braba, boa de novo. Menino podia voltar. Cabisbaixo, respeitoso, era só não deixar Mãe perceber uso do recurso. Era preciso Mãe acreditar que subir calçada não foi nem pensado, fruto do desespero. No fundo, toda a meninada da casa tinha até pena de Mãe. Nem deixava se cansar muito e já apelava pra calçada, ora de Dona Judite, ora de Doutor Epitácio, os inimigos próximos do circuito, calçadas largas, de gente abastada. Ver Mãe zangada mesmo era apelar para a calçada de Doutor Epitácio, motivo de briga nunca conhecido. O velho até parecia que tinha a idade da briga, pode ser que já nasceu inimigo, herança de geração anterior, sabe lá qual.

 

Irmão menor, coitado, deu-se mal. Pegou Mãe em fase difícil. Do Pai, nem lembrança. Pouco viveu da aventura do jardim, da corrida assistida a palmas e torcida. Casa nesse tempo tinha dificuldade. Tudo contado: de cada coisa, pedaço certo pra cada um, reservado, respeitado.

Aconteceu de irmão pequeno quebrar o braço. Tempo outro, era até desejo, bonito que era, cuidado que merecia. Mas naquele momento, pensamento fundo: medo de avisar, de apanhar, medo de encarar o motivo da mãe.

 

Casa deu por falta do menino menor. Mãe procurou cada canto da cidade. Rodou Rua de Baixo, Rua de Cima e beira de rio. Casa de Dona Rita, nada. Casa de Dona Edite, nem sinal. Mãe continua. Pára de repente.

 

Olha pra calçada proibida: Dona Judite. Vacila a primeira vez. Pensa pouco. Orgulho descido, Mãe parece aceitar quebrar acordo. Não diz nome, não sobe calçada. Só a pergunta, o necessário: “Viu meu pequeno?”. E, lá na frente, mesmo procedimento pra Doutor Epitácio: “Tá aqui não, o menino?”. Palavra gasta à toa, nada mesmo do menor.

 

Irmão mais velho, já pai da casa, vai pro quintal. Casinha dos segredos esconde o menor. Lá, num canto, assustado, olhou desconfiado: “Tou aqui, Tuca. Fala pra Mãe não, que eu quebrei o braço. Como é que ela vai pagar hospital?”. Irmão quis sugar-lhe a dor. Olhou pro menor, carregou-o nos braços. Não podia entender, não tinha como: “Causa de que criança pequena tem de crescer tão depressa?”.

 

Sem resposta, soprou-lhe levemente a testa, afastando o abastado cabelo da mira dos olhos. Nem pensou muito, doído que era, fez só buscar ajuda. Casa de Doutor Epitácio, médico. Subiu a calçada.