a freira

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Chegou sem nada. Sem malas, sem história, sem recepção. Chegou à cidade, porque faltava padre. Procurou a casa que abrigava costumeiramente os donos da Igreja. “Irmã do Socorro.” Sem muita conversa, apenas nome e a justificativa: “O bispo me mandou”. Era já chegada na idade, expressão forte, nariguda. E bem diferente das outras irmãs, franzinas, encurvadas, costume de olhar pra Deus na direção do chão. Irmã Socorro era gorda, olhar seguro, pulso firme e olhava pro alto, sem medo de Deus encontrar. Parecia.

 

Como quem tem pouco tempo e muito pra fazer, não demora a buscar tarefa. Não descansava. Primeiro foi a missa: povo já sem graça, afastado, cansado do texto. Trazer o povo de volta foi início. Correu casa a casa visitando velho, velha, rico, pobre e criança. Tempo pouco, igreja enche de gente. Coral já ensaiava música nova, diferente.

 

Malquerer começa cedo, quando irmã não aceita ficar na clausura, fechada no mundo bom, regado a vinho e ofertas saborosas das beatas de posses. Gente havia que ficava contra. Moça de saia curta não entrava na igreja, protestava. Mesmo jeito esse, a Freira conseguiu até celebrar missa, coisa que abalou família mais abastada, dona do mundo e dos rituais da Igreja. Era gente contra e gente a favor.

 

Depois de povo na igreja, a Freira busca tarefa maior. Reforma casa de velho pobre, sem recurso. “A verba tá vindo do bispo!” Vendedor vendia feliz, colchões, cobertores, carinho até. Fatura gorda importava no fim de tudo. Teatro da cidade ficou como merecido, reformado. Lojas grandes disputavam fornecimento de material. “É importante pra cidade!” Diziam. E ela: “A verba tá vindo do bispo!”.

 

Criançada foi cuidada. A Freira juntou a meninada e ensinou fazer chocalho de tampa de garrafa amassada, enfiada em arame amarrado em forquilha tirada de árvore velha. Ensina Pastoril, auto bonito de Natal, cordão azul e encarnado. Meninada, no palco, representa a chegada de Deus Menino, canta as jornadas. Colocou amor em lugar importante, fez até cerimônia de casamento, com direito a entrada ensaiada, coisa bonita.

 

Não ficou casa descuidada, gente desamparada. Jeito duro, conseguia até comprar cesta básica. Fiado. E na mercearia de Zeca Tubaína, que mantinha com firmeza o cartaz na boca do caixa: “Fiado só amanhã!”. Pedido do bispo não tinha como negar.

 

Povo não entendia: “Tempo curto, como podia fazer coisa tanta?”. Gente a favor, gente contra. Cidade fica dividida mesmo. Bondade de vendedor cobra dinheiro do bispo. A Freira não se incomodava. Apenas dizia: “A verba tá vindo do bispo!”. Palavra ficava doce e segurava ânimo exaltado.

 

Dia certo, faz missa oficial. Domingo. Aviso importante: “O bispo informa que tá chegando semana que vem”. Missa acabada, povo sai em alvoroço. Quem do contra, sem graça, Freira tinha mesmo poder. Quem a favor, vista pra cima, confiante, crente.

 

Visita esperada mais que chegada de Deus. Casa da Véa Neném reuniu as iguarias mais saborosas, receitas guardadas pra momento nunca sabido. Irmã do Socorro via os preparativos, pouco ajudava, mas dizia a quem perguntava: “Pode vir quem quiser!”.

 

Sábado, nobre por excelência, amanheceu com ares de festa grande. Teve até alvorada, coisa especial reservada para momentos poucos. Mesa da casa da Véa Neném era compoteira de tudo quanto é tipo de doce. Mesa farta, alegria de padre, desejo travestido. Até compota de limão, bola verde brilhosa, calda grossa. Rua cheia, dia de feira, cidade toda era quase feira. Tudo uma coisa só.

 

Não teve banda, mas teve música e carro oficial, autoridade: nada de bispo, nada de Freira. Sirene da Polícia Federal invade a cidade. Juízo final. Freira do Socorro sai algemada, sem máscara. Sem despedida, sem nada. Nada levou. Olho pra cima, meio louca, meio ainda olhando pra Deus. Ficou só o silêncio e uma nota na TV: “Doida se passa por freira e causa estragos em cidadezinha do interior”.