a fossa outra vez

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Povo estranho da casa comeu galinha toda, até a miudeza, interna, desnecessária, lambeu os dedos. “Gostosa a galinha da fossa”, frase estranha pra o menino, calado no canto, como quem estranha os pares pela primeira vez. Permaneceu quieto dia todo, olhando pra dentro, pensando na galinha caída na fossa. “Galinha pensasse”, pensava o menino, “que­ria viver na fossa”. Bicho de sentido fraco de­veria ser a galinha. “Que horror! Vida outra existir, qualquer bicho, menos galinha”. Me­nino pensava, povo da casa dormia, depois de saborear a iguaria recuperada.

Tarda pouco, segunda vez. Fossa volta ao centro da casa.

 

* * *

 

Dia guardado no quarto, menino ouve his­tória estranha. “Guarda a arma, Felisberto, perigo dentro de casa, deixa pra usar só no mato, pra caçar.” Quarto do irmão, amigo dá conselho. Menino fica atento, nada mais ouve. “Mãe tem que saber”, pensava maldosamente, mas agora com boa intenção. Menino se distrai, brincadeira. Chance vai.

Casa do menino, cada qual tem seu lugar na mesa. Ver televisão, preta e branca, tela colorida de três cores, comer, pouco conversar. Hora da novela. Intriga, maldade, traição. Explosão, susto. “Que foi isso?” Mãe levanta. Televisão a primeira suspeita, novela violenta. Menino olha pra porta do quarto do irmão, buraco. “Guarda a arma, Felisberto, perigo dentro de casa.” Frase volta, viva.

 

Casa toda em pé. Na mesa, só Véa Menininha, lado direito, braço segurando a cabeça, recostada, sangue desce pelo braço. Imóvel, inabalada. “Guarda a arma, Felisberto, perigo dentro de casa.” Foi ele. Lembrança tardia denuncia feito do irmão. Tragédia na casa. “Matou Véa Menininha! Matou Véa Menininha!” Irmão corre desesperado, medo do crime, se afugenta em qualquer canto.

 

Gritaria da casa assusta Véa Menininha, sono profundo, costumeiro. Inocência de velha, nem imagina a quase fatalidade. Só olhou pro sangue que escorria e falou serenamente: “Ué, que foi isso aqui?”. Recostada na mesa, não pegou bala, que atravessou a cadeira e furou a parede do fundo da sala. No hospital, esforço tinha de ser grande pra conseguir enxergar o causador do sangue escorrido, uma fagulha da madeira da porta, certeira, maldosa, tocou veia forte, sangrou. Véa Menininha volta. Ninguém vê arma, só um buraco na porta do quarto de onde veio o tiro, outro na cadeira onde Véa sentava repuxada para a mesa e último na parede. Casa tenta dormir a noite longa. A desmorte de Véa não cala a pergunta atordoando cabeça de toda a casa: “De onde veio a arma?”. “Pra onde foi a arma?”

 

Pergunta, uma ou outra, durou tempo. Cidade toda queria saber. Autoridade queria conhecer história, arma de fórum também desaparecida, sumida da sala dos feitos criminais. Caso de justiça, envolvendo tabelião e filho menor. A casa, suspeita, é vasculhada cima a baixo, canto a canto. Irmão, besta que não era, indica a depositária: “A fossa, joguei a arma na fossa”. Fossa de novo o centro da casa. E agora em alto estilo, com platéia grande e luz, muita luz, escuridão a ser revelada, segredos íntimos escancarados.

 

Primeiro lanterna acesa, mirando o cenário estranho, de ratos e baratas, pedaços de revista, e o que de mais ali podia caber. Irmão, estranhamente calado, via a cena com ares de autor, dono da história, manipulador das personagens.

 

Nada na primeira tentativa. Havia sempre um curioso tentando, olho nu, enxergar algo aqui ou acolá, lá dentro, tentando imaginar contornos possíveis, como criança brincando com nuvem desenhista, que alimenta imaginação.

 

Dia seguinte, extensão era necessária. Extensão casa-quintal, luz forte. Lá dentro, ela começa a brilhar, cabo dourado, era a arma, quase afundada. Ânimo geral. Gancho de arame providenciado, é hora de pescar a arma do fundo da fossa. Peixe teimoso não deixava ser fisgado, gancho voltava sempre sem o objetivo, deixando a platéia, agora aumentada, ainda mais entusiasmada e desejosa de saber desfecho.

 

O jeito era quebrar mais a boca da fossa. Divã da casa ameaçado. Justiça manda assim, assim é. Marretada uma a uma racha a tampa, escancara. Agora dava pra passar homem magro, pendurado, mais hábil que gancho de arame. Dodóia, sempre 11 no jogo de bingo, se candidata. “Segura a corda, lá vai Dodóia!”, gritava a torcida animada, sem convite, penetra da festa. Menino via de longe, enciumado, casa derrubada.

 

Demora besta, sobe Dodóia, meio fétido, suado, com cara de bufa engarrafada. Nas mãos, o cabo da arma: a tampa dourada de um vidro de Alfazema Suissa. Se lá estava, fossa, mesmo violada, guardou segredo. Arma nunca foi encontrada.